Medicamentos de alta complexidade e saúde suplementar: como equilibrar inovação, acesso e sustentabilidade
Medicamentos de alta complexidade e saúde suplementar: como equilibrar inovação, acesso e sustentabilidade
A velocidade da inovação farmacêutica está ampliando as possibilidades de tratamento para doenças que, até poucos anos atrás, contavam com alternativas terapêuticas limitadas. Medicamentos biológicos, imunoterapias, terapias-alvo e outras soluções de alta complexidade vêm transformando áreas como oncologia, imunologia, hematologia e doenças raras, oferecendo novas perspectivas para pacientes e profissionais de saúde.
Ao mesmo tempo, essa evolução traz uma questão que se torna cada vez mais estratégica para todo o setor: como incorporar tratamentos inovadores e ampliar o acesso sem comprometer a sustentabilidade dos sistemas de saúde?
No Brasil, essa discussão ganha especial relevância na saúde suplementar. Dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que os gastos com medicamentos representaram 10,2% das despesas médico-hospitalares do setor em 2024 e cresceram 40% em relação a 2019. O mesmo levantamento aponta que os medicamentos corresponderam a 81% das novas coberturas obrigatórias incorporadas aos planos, com crescimento particularmente relevante dos tratamentos oncológicos.
Os números revelam uma transformação importante: o medicamento deixou de ocupar uma posição complementar na discussão sobre custos assistenciais e passou a estar no centro das decisões sobre acesso, inovação e sustentabilidade.
A inovação está transformando a jornada terapêutica
O aumento da participação dos medicamentos nas despesas assistenciais não pode ser analisado apenas pela perspectiva de custos. Por trás dessa evolução existe uma mudança significativa no perfil dos tratamentos disponíveis e na própria forma como diversas doenças são abordadas.
Em julho de 2026, por exemplo, a Anvisa divulgou novas indicações envolvendo medicamentos para câncer renal, hemofilia, linfoma, lúpus e esclerose múltipla. Em meses anteriores, outras aprovações contemplaram câncer de mama, câncer de bexiga, miastenia gravis, angioedema hereditário e até uma terapia destinada a retardar a progressão do diabetes tipo 1 em determinados pacientes.
Esse cenário demonstra como o conceito de medicamento de alta complexidade está cada vez mais associado à inovação terapêutica e à personalização do cuidado. Em muitos casos, não estamos simplesmente falando de substituir um tratamento antigo por um produto mais novo, mas de criar possibilidades clínicas que anteriormente não existiam para determinados grupos de pacientes.
Para hospitais, clínicas, operadoras e demais participantes do ecossistema de saúde, acompanhar essa evolução deixa de ser apenas uma questão técnica. Torna-se também uma necessidade estratégica.
Quando mais inovação também significa maior pressão sobre os custos
O desenvolvimento de terapias inovadoras envolve anos de pesquisa, estudos clínicos, tecnologias sofisticadas e processos regulatórios rigorosos. Consequentemente, muitos desses medicamentos chegam ao mercado com valores elevados, principalmente quando destinados a populações reduzidas ou desenvolvidos por meio de plataformas biotecnológicas complexas.
É justamente nesse ponto que surge um dos grandes dilemas da saúde contemporânea. O sistema precisa encontrar maneiras de incorporar inovação sem transformar o avanço científico em uma fonte crescente de desigualdade no acesso ao tratamento.
Para as fontes pagadoras, a questão também envolve previsibilidade. Uma terapia de alto custo pode representar um impacto financeiro significativo mesmo quando destinada a um pequeno número de beneficiários. À medida que mais tratamentos dessa natureza chegam ao mercado, modelos tradicionais de financiamento passam a ser pressionados.
Isso explica por que sustentabilidade e acesso não devem ser tratados como objetivos opostos. Na realidade, construir modelos economicamente sustentáveis é justamente uma das condições necessárias para ampliar o acesso à inovação no longo prazo.
Novos modelos começam a entrar nessa discussão
A busca por alternativas já está acontecendo no Brasil. Em 2026, a ANS vem discutindo possibilidades para ampliar o acesso a medicamentos de alto custo na saúde suplementar, incluindo instrumentos que possam facilitar a incorporação dessas tecnologias ao Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde.
Entre as alternativas discutidas estão os chamados acordos de compartilhamento de risco, modelos nos quais diferentes agentes podem dividir parte da incerteza financeira ou clínica relacionada à incorporação de determinada terapia. Dependendo do desenho adotado, fatores como resultados obtidos, população atendida e condições negociadas podem participar dessa equação.
Esses modelos não representam uma solução universal e exigem critérios técnicos, transparência, acompanhamento de resultados e segurança regulatória. Ainda assim, sua discussão demonstra uma mudança importante na forma como o setor encara os medicamentos de alta complexidade: diante de terapias cada vez mais sofisticadas, novas formas de acesso e financiamento também precisam ser consideradas.
O valor de um tratamento não pode ser analisado apenas pelo preço
Outra transformação importante está na maneira de avaliar o impacto econômico das novas terapias. O preço de aquisição de um medicamento é uma variável fundamental, mas não necessariamente representa todo o seu impacto sobre a jornada assistencial.
Um tratamento capaz de controlar melhor determinada condição pode, dependendo do caso e das evidências disponíveis, influenciar necessidade de internações, procedimentos, acompanhamento e outras etapas do cuidado. Da mesma forma, uma terapia mais direcionada pode beneficiar grupos específicos de pacientes de maneira diferente de uma abordagem convencional.
Por isso, cresce a importância de conceitos como avaliação de tecnologias em saúde e geração de evidências no mundo real, que permitem analisar não apenas quanto determinado tratamento custa, mas quais resultados efetivamente entrega dentro da prática assistencial.
Essa visão é especialmente relevante em um ambiente no qual decisões precisam conciliar interesses de pacientes, profissionais, instituições, operadoras e indústria farmacêutica.
Mais alternativas também podem contribuir para a sustentabilidade
A inovação não ocorre apenas pela chegada de medicamentos inéditos. O crescimento dos biossimilares, tema que abordamos recentemente, demonstra como o amadurecimento de determinadas classes terapêuticas também pode estimular concorrência e criar novas possibilidades para pacientes e instituições.
Em junho de 2026, a Anvisa atualizou seu entendimento sobre intercambialidade de biossimilares, consolidando evidências segundo as quais a alternância entre um biossimilar e seu biológico comparador não altera de maneira clinicamente significativa os perfis de segurança, eficácia e imunogenicidade quando respeitadas as condições aprovadas pela Agência.
A evolução regulatória e o aumento da disponibilidade dessas alternativas mostram que sustentabilidade não depende necessariamente de limitar a inovação. Em determinados cenários, ela também pode ser construída ampliando opções, estimulando concorrência e utilizando evidências para tomar decisões mais eficientes.
Para as empresas do setor, conhecimento passa a ser um diferencial estratégico
Em um mercado com medicamentos cada vez mais especializados, compreender apenas o produto já não é suficiente. Hospitais, clínicas, operadoras, profissionais e empresas que atuam com medicamentos especiais precisam acompanhar simultaneamente evolução científica, cenário regulatório, novas indicações terapêuticas e transformações nos modelos de acesso.
É nesse ambiente que a especialização ganha ainda mais importância. Conectar conhecimento sobre medicamentos de alta complexidade às necessidades reais de pacientes e instituições torna-se parte fundamental de uma cadeia de saúde mais eficiente e preparada para incorporar inovação.
Para a ProGoods, acompanhar essas transformações faz parte de uma atuação que vai além da disponibilização de medicamentos especiais. Significa compreender um mercado em constante evolução e contribuir para aproximar tratamentos de alta complexidade das instituições e pessoas que deles necessitam.
O futuro exigirá novas formas de pensar o acesso
Os próximos anos devem aprofundar uma discussão que já está acontecendo: como aproveitar todo o potencial da inovação farmacêutica sem tornar sua incorporação incompatível com a capacidade financeira dos sistemas de saúde.
Não existe uma resposta única. Maior concorrência, biossimilares, avaliação de tecnologias, negociação baseada em evidências, compartilhamento de risco e novos modelos de acesso provavelmente farão parte de uma combinação de estratégias necessárias para enfrentar esse desafio.
O que já parece claro é que inovação, acesso e sustentabilidade precisarão avançar juntos. Desenvolver tratamentos capazes de transformar a vida dos pacientes é uma conquista extraordinária da ciência; construir caminhos para que essas terapias possam efetivamente chegar a quem precisa será um dos grandes desafios do setor de saúde.
E, em um mercado cada vez mais complexo, informação, especialização e capacidade de adaptação serão tão importantes quanto a própria inovação.
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